Prescrição de Exercício Físico na Gravidez

A prática de exercício de forma regular durante o período gestacional tem importante influência na prevenção de complicações materno-fetais, otimizando o bem-estar da gestante e do feto. A maioria das mulheres grávidas não atinge as atuais recomendações de atividade física e muitas continuam inativas durante e após a gravidez. O exercício físico, se corretamente implementado durante a gravidez, é seguro e benéfico para a gestante e para o feto. É fundamental que estas orientações sejam implementadas na prática clínica, no sentido de se obterem benefícios significativos e potencialmente duradouros para a saúde, tanto da mãe como da criança. 

A prática de atividade física de forma regular ao longo da vida tem benefícios comprovados na promoção da saúde física e mental, na redução da prevalência de doenças crónicas e na diminuição da mortalidade, sobretudo se associada a patologia cardiovascular e/ou oncológica. A gravidez é, por excelência, um período único na vida de uma mulher, onde a adoção de determinados comportamentos de estilo de vida pode influenciar diretamente a saúde da mãe e do seu bebé. 

A atividade física tem sido cada vez mais proposta como uma medida preventiva e/ou terapêutica na redução de complicações obstétricas e na otimização da saúde materno-fetal. 

Durante a gravidez, a mulher é sujeita a uma série de transformações fisiológicas e psicológicas. As adaptações fisiológicas ocorrem sobretudo ao nível musculosquelético, hormonal e cardiovascular: alteração do centro de gravidade, ganho ponderal, retenção hídrica e aumento do volume plasmático, aumento da frequência cardíaca, entre outras. Além disso, a gravidez é frequentemente associada a alterações do estado emocional relacionadas sobretudo com o estado hormonal. O conhecimento destas adaptações é essencial na avaliação e orientação correta da grávida e ajudam o médico a adotar medidas de prevenção de complicações materno-fetais. 

Devido ao seu importante papel na manutenção de um estilo de vida saudável, a atividade física tem recebido mais atenção nas últimas décadas, até pelo aumento da taxa de obesidade a nível mundial.  As mulheres obesas têm risco maior de desenvolver diabetes gestacional e maior probabilidade de ganho excessivo de peso, podendo afetar significativamente a saúde materna e fetal. A atividade física durante a gravidez não diminui apenas o risco de diabetes gestacional, mas também reduz a probabilidade de desenvolvimento de pré-eclâmpsia e de hipertensão arterial induzida pela gravidez, diminui o risco de cesariana e a gravidade dos sintomas depressivos pré-natais. O exercício pré-natal pode ainda reduzir a duração do segundo estádio do trabalho de parto, assim como diminuir o risco de cesariana ou instrumentalização de parto vaginal. Estudos recentes mostram ainda que poderá diminuir a probabilidade e a gravidade dos sintomas de incontinência urinária pós-natal.

A prescrição de exercício na gravidez deve pressupor uma abordagem individualizada e considerar as características particulares de cada mulher. Os profissionais de saúde devem avaliar cuidadosamente as gestantes quanto a complicações obstétricas ou médicas antes de fazerem recomendações sobre a prática de atividade física. A frequência, intensidade, tipo e duração do treino devem ser adequadas a cada trimestre e às condições da grávida. 

O acompanhamento e a proximidade médica durante a preconceção e ao longo do período gestacional é fundamental na prevenção e controlo de intercorrências relacionadas com a gravidez. É também durante a gestação quea grávida está mais predisposta à modificação de comportamentos e, globalmente, tem acesso mais regular aos cuidados de saúde, é uma oportunidade para promover comportamentos de vida saudável que podem trazer benefícios de curto e longo prazo para a mãe e para o bebé.

Beatriz Cardoso Marinho | Médica Medicina Desportiva

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